domingo, 8 de março de 2020

Postagem nº 02

Encheiridion de Epiteto
[1.1] a [1.3]

Das coisas existentes, algumas são encargos nossos, outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa - em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos - em suma: tudo quanto não seja ação nossa Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem. Lembra então que, se pensares livres as coisas escravas por natureza e tuas as de outrem, tu te farás entraves, tu te afligirás, tu te inquietarás, censurarás tanto os deuses como os homens. Mas se pensares teu unicamente o que é teu, e o que é de outrem, como o é, de outrem, ninguém jamais te constrangerá, ninguém te fará obstáculos, não censurarás ninguém, nem acusarás quem quer que seja, de modo algum agirás constrangido, ninguém te causará dano, não terás inimigos, pois não serás persuadido em relação a nada nocivo. (...)

Tradução do Grego por Aldo Dinucci e Alfredo Julier, Imprensa da Universidade de Coimbra.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Postagem nº 01

Provérbios 27:5,6

Melhor é a repreensão feita abertamente do que o amor oculto.
Quem fere por amor mostra lealdade, mas o inimigo multiplica beijos.

Uma amizade (de verdade, não estes "coleguismos" de ocasião que somos obrigados a viver em nossa vida pública, social, profissional, etc.) deve não só ser capaz de resistir, mas também crescer, a partir da manifestação da "verdade" (entendida esta, nesta passagem bíblica, como "a repreensão feita abertamente", ou seja, quando alguém próximo aponta, de forma expressa, um erro seu, ainda que não seja agradável ouvir o que seu próximo tem a lhe dizer). Quando isso acontece, não devemos nos ofender com o nosso próximo (o que aponta o erro), mas amá-lo, porque a repreensão, neste caso, é uma demonstração de lealdade.
É justamente o que o trecho final aponta: o "inimigo" (no caso, o seu "não amigo") não lhe dirá a verdade ( o que seria melhor para você), mas mentirá, desviará o assunto, tergiversará, te elogiará, minimizará seu erro. Em outras palavras: fará não o que é melhor para você, que é ouvir a verdade, mas fará o que é melhor para ele - te manipular, te usar, e talvez, mais adiante, até mesmo se aproveitar do seu erro para derrubar você.
Quem aponta o seu erro o faz porque se importa demais com você para deixar você insistir no erro.  Quem aponta seu erro lhe ama, por mais dura que possa parecer a reprimenda (e a "verdade" que a reprimenda carrega dentro de si). Quem deixa seu erro passar "em branco" está sendo insincero, e, provavelmente, não se importa com você, mas apenas com as coisas que obterá a partir da sua queda.